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Parlamentares dizem que carta é rompimento e fortalece o impeachment

08/12/2015
No texto-desabafo, vice-presidente afirmou que Dilma sempre teve 'absoluta desconfiança' nele próprio

O tom beligerante da carta enviada pelo vice Michel Temer à presidente Dilma Rousseff é um sinal inequívoco das intenções do peemedebista de romper com o Palácio do Planalto e de escancarar o caminho para poder navegar em carreira solo em prol do impeachment. Essa é a avaliação de parlamentares no Congresso Nacional. Hoje eles compartilharam a análise de que um recuo de Temer é impossível, ainda mais diante do grau de insatisfação exposto no documento, que afirma que Dilma tem "absoluta desconfiança" no PMDB e nele próprio e que no papel de vice-presidente sempre foi tratado de forma "decorativa". Nesta terça, depois do vazamento da carta, Temer se reuniu com aliados.

"Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas", disse Temer em um dos trechos da carta-desabafo. Dentro do PMDB, o diagnóstico é o de que Temer verbalizou a insatisfação de uma parte representativa dos quadros peemedebistas e, com isso, deve atrair apoios e "solidariedade de muitos colegas" e minar a força política de lideranças do partido alinhadas ao Palácio do Planalto, como Leonardo Picciani (PMDB-RJ). O próximo passo deve ser a legenda fazer consultas às bancadas da Câmara e do Senado e aos diretórios regionais para decidir qual será a posição formal do PMDB sobre o impeachment. Entre os senadores, o tom é de mais cautela, tentando circunscrever o desabafo a uma visão pessoal do vice.

"A carta do Michel foi para restabelecer verdades. Não sei se é orientação do marketing dela, mas a presidente Dilma estava querendo se vitimizar e constranger o Michel a assumir uma posição contra o impeachment. Quando ele demonstra insatisfações na carta, agora vai atrair a solidariedade de muitos colegas", disse o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). "Essa carta é o próprio rompimento. Ela exprime o sentimento de quem ficou fazendo um torniquete ao longo de cinco anos sobre os maus tratos sofridos na condição de vice. É uma coisa que não tem mais volta. A sorte está lançada", afirmou o líder da minoria Pauderney Avelino (DEM-AM).

"Ele estava com essa indignação presa e mostrou que a tal lealdade que a Dilma propalava era mais uma armadilha para constrangê-lo. Isso foi o maior combustível depois da deflagração do processo de impeachment e gerou uma solidariedade dentro do Congresso e, especialmente, dentro do PMDB. Vai incendiar o debate", declarou o líder do DEM na Câmara Mendonça Filho (DEM-PE).

Reservadamente, peemedebistas afirmam que o clima no Congresso pode sair de controle e a presidente Dilma perder os parcos flancos de apoio na Câmara. "Queremos tocar o caos. Se vai dar em impeachment ainda não sabemos, mas aqui será o caos", afirmou um oposicionista. Para outro aliado de Temer, "esse episódio do vazamento [da carta] foi traumático e a bancada está dividida entre os mais próximos do Michel e do Picciani". "O governo tentou colocá-lo como um conspirador [com o vazamento]. Ele ficou muito chateado e se irritou porque a carta era uma coisa pessoal", disse. Nesta segunda-feira, depois de ver trechos do documento vazados, o próprio Temer, segundo aliados, decidiu divulgar a íntegra do desabafo.

No Senado, a carta de Michel Temer também foi interpretada como a demonstração do divórcio iminente entre o vice e a presidente Dilma. "O desabafo do vice-presidente demonstra que a presidente da República não tem habilidade política sequer para contar com o apoio quem foi eleito ao seu lado na campanha de 2014. É um rompimento explícito de Temer com Dilma", disse o senador tucano Paulo Bauer (SC).

"A carta de Michel Temer é uma declaração a favor do impeachment de Dilma. Houve uma posição sem rodeio, onde expõe, além da incapacidade administrativa, a falta de apoio político da presidente", declarou o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO).

Publicamente, o PT tenta relativizar o estrago político da carta-bomba do vice-presidente Michel Temer. Nos bastidores, porém, o dia será de reuniões para analisar as chances da debandada do PMDB. "Nessas horas, a gente tem de ter cuidado para não fazer da política uma atividade em doutorado em conspirações. Uma carta com essa expressão de opiniões é normal dentro da política, faz parte de uma crítica que o vice colocou a alguns processos que ocorreram dentro do governo", relativizou o vice-líder petista Henrique Fontana (PT-RS). Embora o tom duro da carta seja evidente, Fontana arriscou a tese improvável de que a manifestação de Michel Temer não é "nenhum sinal de rompimento".

"A carta indica o menosprezo com que o governo do PT tratou ao longo desses anos os seus aliados. É o menosprezo da hegemonia daqueles que estão no poder pelo poder e tratam seus aliados como subalternos. É evidente que provoca reação. Isso é sinal de rompimento, sinal de que não há mais como PT e PMDB conviverem", rebateu o líder do PPS na Câmara Rubens Bueno (PR).

Entre os tucanos, a análise dos impactos da carta-desabafo de Temer provocou um efeito diferente. Embora reconheçam que o documento escancara o racha no PMDB e fortalece o impeachment, parlamentares do PSDB ainda apostam na queda de toda a chapa do Palácio do Planalto, Temer incluído. Isso porque o peemedebista também assinou parte dos decretos sem número das pedaladas fiscais liberando crédito sem o aval do Congresso. Os decretos são o principal argumento utilizado pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para acatar o pedido de impeachment de Dilma.



Fonte: Veja;
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters.






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